Centros de Inovação que não Inovam: A Nova Geração de Elefantes Brancos Municipais
- Téo Girardi

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Nos últimos anos, a retórica da inovação pública ganhou força entre os governos municipais brasileiros. Impulsionadas por exemplos internacionais e programas de transformação digital, muitas prefeituras investiram em estruturas que prometiam revolucionar a gestão pública: salas modernas com paredes de vidro, hubs decorados com pufes coloridos e murais inspiradores, secretarias com nomes sedutores como "Inovação e Tecnologia". No entanto, o que se vê em muitos desses espaços hoje é o silêncio. O que nasceu como símbolo de modernidade transformou-se, na prática, em mais uma estrutura subutilizada — um novo tipo de elefante branco no setor público.

A dura realidade é que inovação pública não se constrói com estética, nem com decretos. A inovação verdadeira é, antes de tudo, um processo institucional, cultural e político. Sem esse entendimento, o que era para ser um vetor de transformação vira mais um monumento à superficialidade das políticas públicas — espaços caros, abandonados e desconectados das reais necessidades do território.
Forma sem Função: O Erro da Inovação Simbólica
Inovação não é uma sala decorada, puff colorido e paredes de vidro para escrever. Especialmente no setor público, inovar significa enfrentar desafios reais e estruturalmente complexos: filas na saúde, evasão escolar, burocracia asfixiante, baixa transparência, perda de arrecadação. Problemas que não se resolvem com post-its na parede.
A maior parte dos municípios brasileiros tem menos de 100 mil habitantes, com recursos financeiros limitados, quadros técnicos enxutos e enormes desafios de gestão. Nesse cenário, investir em um “espaço de inovação” sem garantir orçamento contínuo, formação técnica, autonomia institucional e objetivos estratégicos claros é como montar um teatro sem roteiro, elenco ou plateia. O resultado é previsível: mais uma sala decorada que não cumpre nenhuma função real.
Muitos gestores confundem inovação com digitalização. Acreditam que contratar uma startup ou comprar uma tecnologia resolve o problema. Outros reduzem a inovação a eventos pontuais ou capacitações genéricas. E há, ainda, quem replique modelos importados de grandes capitais ou de países com contextos completamente distintos, sem qualquer adaptação à sua realidade local. O resultado? Frustração, desperdício de dinheiro público e o agravamento da descrença na capacidade do Estado de se reinventar.
Inovação Começa onde Dói
A inovação pública de verdade nasce da dor: de um problema que o modelo tradicional já não consegue resolver. É ali, na falência do método atual, que surge a oportunidade de criar algo novo. Mas isso exige mais do que boas intenções: exige vontade política, coragem institucional e capacidade de gestão.
Transformar processos públicos é um ato de ruptura com o status quo. Exige revisar normas, mudar rotinas, capacitar servidores, criar incentivos para testar soluções e aceitar riscos. Exige escuta ativa da sociedade, articulação com universidades, colaboração com startups, abertura para o incômodo. É tudo aquilo que não cabe dentro de uma sala de design thinking se essa sala não estiver conectada ao mundo real.
A maioria das prefeituras que hoje acumulam estruturas subutilizadas ou projetos-piloto que nunca saem do papel são justamente aquelas que investiram mais em imagem do que em cultura institucional. Criaram vitrines bonitas, mas sem conteúdo por trás. Sem engajamento político real, sem servidores mobilizados, sem governança e sem diálogo com o ecossistema de inovação local, esses espaços não transformam nada — apenas consomem tempo, orçamento e paciência.
O Que está Funcionando: Lições dos Territórios que Avançam
Por outro lado, há municípios que têm conseguido fazer a inovação pública sair do discurso e ganhar forma real — mesmo sem grandes recursos ou estruturas luxuosas. O que esses casos têm em comum?
Diagnóstico de desafios reais antes de pensar em soluções
Formação de lideranças internas com autonomia para inovar
Instrumentos legais e orçamentários que viabilizam contratações inovadoras
Parcerias sólidas com startups, universidades, ONGs e outros atores locais
Foco em medir impacto e compartilhar aprendizados com outras gestões
Inovar no setor público não é um privilégio de grandes cidades. É uma estratégia essencial de sobrevivência e eficiência, especialmente em tempos de crise fiscal, desigualdade crescente e exigência cidadã por governos mais inteligentes e responsivos.
O Brasil precisa urgentemente superar a fase da estética e da retórica da inovação pública. Precisamos de menos salas instagramáveis e mais políticas públicas que gerem valor real para as pessoas. Inovação não pode ser tratada como um acessório do governo — ela deve ser o eixo estratégico das decisões públicas.
É momento de superar a obsessão por uma inovação meramente estética e começar a construir, com responsabilidade e intencionalidade, uma cultura real de mudança no setor público. No fim das contas, inovar significa gerar impacto positivo na vida das pessoas — e isso vai muito além de salas modernas e ambientes decorativos.
O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres políticas.

Teo Girardi é fundadora do GovTech Lab e criadora do GovTech Place, primeira plataforma B2G do Brasil. Com mais de 14 anos em inovação e tecnologia, lidera o GovTech Summit e impulsiona governos inteligentes, sustentáveis e centrados no bem-estar humano.





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