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A continuidade de Lula passou pelo eleitor independente

Foto do escritor: Elis Radmann
Elis Radmann
há 6 dias
3 min de leitura

A polarização já estava definida. De um lado, eleitores identificados com Lula e a esquerda. De outro, bolsonaristas e eleitores de direita. As pesquisas mostravam algo próximo de um terço do eleitorado em cada um desses campos. Restava conquistar quem não se reconhecia integralmente em nenhum deles, o eleitor independente que não é nem Lula, nem Bolsonaro.

Imagem gerada por inteligência artificial, sob direção editorial do Mulheres Políticas.
Imagem gerada por inteligência artificial, sob direção editorial do Mulheres Políticas.

Esse eleitor independente foi o mais difícil de mobilizar durante toda a campanha. Parte se aproximou de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Outra preferiu candidatos alternativos, o voto branco, nulo ou simplesmente não participou. Em comum, havia um sentimento conhecido pelas pesquisas: decepção com a política, preocupação com a corrupção, custo de vida, saúde, educação e segurança, além de pouca confiança de que o país melhoraria com qualquer um dos dois.


No segundo turno, Lula e Flávio precisavam falar justamente com esse eleitor. Mas as campanhas recorreram também a uma estratégia conhecida: o medo. Mais do que convencer sobre um projeto de futuro, passaram a mostrar os riscos da vitória do adversário.


O medo mobiliza porque envolve emoção. E conteúdos que provocam medo, indignação ou sensação de ameaça circulam com facilidade, principalmente nas redes sociais. Não por acaso, as pesquisas passaram a acompanhar não apenas em quem o eleitor votaria, mas qual resultado mais temia. Na reta final, 44% diziam ter medo da volta da família Bolsonaro ao poder e 42% temiam a reeleição de Lula.


A eleição ficou tão equilibrada que deixou de ser apenas uma disputa de preferência e passou também a ser uma disputa de rejeição. Para muitos brasileiros, votar significava escolher alguém. Para outros, significava impedir a vitória do outro.


Esse ambiente produz outro comportamento interessante. Quanto mais hostil fica o debate político, menor pode ser a disposição das pessoas a expor suas opiniões. A chamada “espiral do silêncio” ajuda a explicar isso: quando alguém acredita que sua posição pode provocar crítica, conflito ou isolamento, tende a falar menos sobre ela.


Surge também o voto silencioso ou envergonhado. O eleitor deixa de discutir política na família, no trabalho ou nas redes sociais, mas mantém sua decisão até chegar à urna. Por isso, nem sempre aquilo que aparece com mais força nas redes representa, na mesma proporção, o que existe na sociedade.


E o resultado trouxe um dado importante. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para cerca de 19,2% no segundo. Aproximadamente três milhões de brasileiros que não haviam participado foram às urnas. Lula, que havia perdido o primeiro turno, terminou reeleito com 51,79% dos votos válidos.


A continuidade não foi garantida apenas pelos movimentos e mobilizações da campanha de Lula. Lula precisava ultrapassar sua própria base, reduzir resistências e mobilizar quem estava distante da disputa. O eleitor independente não precisava se transformar em petista. Precisava, diante de duas opções que despertavam dúvidas, rejeições e medos, decidir participar e fazer uma escolha. As analises recorrentes vão falar de muitas teses e até do voto pela democracia, mas, para o eleitor independente, foi um voto no “candidato menos ruim”, motivado pelas estratégias do medo, inclusive por medos motivados por familiares e amigos.


Talvez essa seja uma das principais mensagens das urnas. Em uma sociedade polarizada, as bases garantem o ponto de partida. Mas são justamente aqueles que ainda questionam, hesitam e não vestem a camisa de nenhum dos lados que podem definir a chegada. Ou seja, quem decide os rumos do país é o eleitor descrente que não gosta de política.

 

O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres políticas.

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do RS. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no RS. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do Estado.


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