top of page

60 socos em silêncio: o que ainda alimenta a brutalidade contra as mulheres?

  • Foto do escritor: Lu Rodrigues
    Lu Rodrigues
  • 30 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Ela ficou desfigurada. Os ossos da face quebrados.

Um homem, jovem, atleta, sozinho com ela num elevador, desferiu 60 socos.

Sessenta!

60 socos
Câmera de segurança registrou momento da violência no RN

A imagem do vídeo, que correu o país como um soco coletivo no estômago, acaba, ao mesmo tempo, expondo um velho e conhecido enredo: em briga de marido e mulher ninguém mete a colher (um ditado que, convenhamos, só pode ter sido criado por um homem).

O que rasga o peito é que esse não foi um caso isolado. No Brasil, uma mulher é assassinada por ser mulher a cada seis horas.

Mais da metade desses crimes acontece em um lugar sagrado: dentro de casa. A maioria, cometida por quem dizia amar. E, quando olhamos para o recorte racial, o abismo se aprofunda: em uma década, os homicídios de mulheres negras aumentaram 34%, enquanto os de mulheres não negras diminuíram. (Fonte: Atlas da Violência)

Esses dados não são números soltos. Muito pelo contrário, eles gritam, com todas as letras: a violência contra a mulher não é um acidente. É uma estrutura. Um projeto.

Muitos casos de feminicídio começam com perseguições disfarçadas de ciúmes, zelo ou preocupação. A violência não começa no primeiro soco, mas sabemos que ela só vai crescendo.

Geralmente começa com uma insistência, um controle, um medo plantado.

Não dá mais para aceitar a desculpa do “homem doente” ou do “monstro fora da curva”.

Não, não é um surto. É um sintoma.

Não é exceção. É sistema.

A tentativa de feminicídio é intencional, brutal e consciente. E, talvez, o mais assustador seja isso: a ausência de medo do agressor. Ele bateu como quem sabe que vai sair impune.

Como quem já viu outros fazendo o mesmo, e continuando suas vidas como se nada fosse acontecer.

A justificativa que deu? Claustrofobia.

Uma desculpa quase cínica diante da cena que o Brasil inteiro viu. Enquanto ele alegava desconforto com o espaço fechado, ela, com o rosto todo quebrado, precisou escrever, à mão, o próprio depoimento. Afinal, não conseguia falar. Ela foi calada. Literalmente, como tantas outras.

E esse silêncio imposto não começa ali.Antes do primeiro golpe, houve o tom de voz alterado.O controle dos passos, das roupas, das amizades.A manipulação emocional.O isolamento disfarçado de “cuidado”.

O feminicídio não começa com o soco. Começa com o medo. Com o silêncio.

Depois do episódio com a promotora Ivana Battaglin (EP. 25), no podcast Mulheres Políticas, meu celular não parou. Recebi mensagens de mulheres que conheço há anos, e de outras que nunca vi. Relatos de dor. De diferentes idades, profissões, classes sociais. Mulheres com medida protetiva. Outras aguardando o julgamento do agressor. E muitas que seguem caladas, sobrevivendo como podem.

Mas havia algo que atravessava todas essas histórias: o medo.

O trauma.

A ferida que não cicatriza.

E é nesse ponto que a responsabilidade precisa se ampliar. Porque quando uma mulher apanha, muitas vezes ela já gritou antes, e ninguém ouviu.

O vizinho que finge que não escuta. O colega que vê, mas não se mete. A instituição que minimiza, que revitimiza. O homem que não é violento, mas se cala diante do amigo que é.

A pergunta que fica não é só: por que ele fez isso?

É: por que ainda é possível fazer isso?

Por que seguimos permitindo?

O que ainda sustenta o braço que bate?

Se essa cena te revoltou, te doeu, te mobilizou — a mim, dilacerou.Não deixa isso morrer no feed.É preciso falar sobre violência contra a mulher.

Fala com teus amigos. Com teus filhos. No grupo da família. No trabalho. Na escola. No bar. Onde for.

Porque o silêncio protege o agressor.

A palavra pode salvar vidas.



O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres Políticas.

Lu Rodrigues. Mulheres Políticas.

Luana Rodrigues é publicitária e fundadora da AOUM – Comunicação Intencional, atua há mais de 20 anos em comunicação pública, institucional e política. Formada em Comunicação Social pela UFRGS, é palestrante e consultora, com MBA em Marketing Estratégico (ESPM) e em Gerenciamento de Projetos (USP/Esalq), especialização em Psicologia Positiva (PUC/RS) e estudos em Psicanálise (Instituto ESPE). Também é host do podcast “Mulheres Políticas”, disponível no YouTube e Spotify, e participa ativamente de fóruns de discussão e aprendizado.


Comentários


bottom of page