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2026 não será sobre ideias. Será sobre quem aguenta o jogo

  • Foto do escritor: Lu Rodrigues
    Lu Rodrigues
  • 5 de jan.
  • 3 min de leitura

Entramos em um ano eleitoral ainda presos a uma ilusão bastante comum na política brasileira: a de que boas ideias, bons discursos e boas intenções são suficientes para garantir espaço, relevância e permanência.É duro dizer, mas não são.


Mulher
Imagem gerada com IA

2026 será menos sobre projetos e mais sobre estrutura. Menos sobre o que se diz e mais sobre quem sustenta o que se diz quando o custo aparece. Menos sobre carisma e mais sobre resistência.

Quem acompanha política de perto já percebeu esse movimento. O debate público empobreceu, a comunicação acelerou e a exigência emocional sobre quem ocupa ou tenta ocupar espaços de poder nunca foi tão alta. Esse peso, vale dizer, recai de forma especialmente dura sobre as mulheres.

Há dois anos, o Mulheres Políticas está no ar ouvindo com atenção lideranças femininas que se destacam em seus territórios. Prefeitas, deputadas, gestoras públicas, empresárias, ativistas, mulheres que chegaram onde chegaram porque se prepararam, estudaram, se qualificaram e erraram menos do que a média. E é justamente aí que um padrão começa a se repetir.

A política não expulsa mulheres por falta de preparo.Ela expulsa pelo cansaço.

As mulheres que chegam à política institucional ou partidária quase sempre chegam altamente qualificadas. Ainda assim, são as primeiras a questionar se devem permanecer. Isso não é coincidência. É um processo sistemático, metódico e cruel.

A política brasileira continua sendo um ambiente que testa limites emocionais de forma contínua. Exige presença constante, disponibilidade total, resistência a ataques pessoais e exposição permanente a julgamentos estéticos, morais e comportamentais. Tudo isso costuma vir embalado no discurso da chamada vocação pública. Na prática, o que se pede é simples e perverso: que a mulher aguente mais e reclame menos.

Se antes a exclusão era direta, hoje ela se dá de maneira mais sofisticada. O novo campo de batalha é invisível e acontece, sobretudo, na comunicação.

A mulher é chamada a falar, mas quando fala firme é considerada agressiva. Quando fala com suavidade, é vista como fraca. Quando se posiciona, exagera. Quando silencia, não tem perfil. O jogo, portanto, não é apenas político. Ele é profundamente simbólico.

Por isso, em 2026, não vencerá quem tiver o melhor slogan. Vencerá quem compreender ao menos três dimensões fundamentais desse cenário.

A primeira é que comunicação não é exposição. É estratégia. Estar presente o tempo todo não significa estar bem posicionada. A superexposição cobra um preço alto e, muitas vezes, desnecessário.

A segunda é que nenhuma narrativa se sustenta sem base emocional. Não existe storytelling capaz de sobreviver a um corpo exausto e a uma mente permanentemente em alerta.

A terceira é que imagem pública não é vaidade. É proteção. Quem não constrói a própria imagem será construída pelo olhar do outro. E, na política, esse olhar raramente é neutro.

Talvez, diante disso, a pergunta que deveria orientar 2026 não seja “como ganhar uma eleição?”, mas algo bem mais incômodo: como permanecer inteira em um sistema que lucra com o esgotamento?

Responder a essa pergunta exige maturidade política. Exige visão de longo prazo. Exige redes reais de apoio, e não apenas alianças oportunistas. Exige, sobretudo, uma comunicação que não romantize o sacrifício como se ele fosse parte natural do caminho.

Chega de vender a ideia de que sofrer faz parte. Sofrer só faz parte do jogo quando ele não foi redesenhado.

Escrever este texto reforça, para mim, o motivo pelo qual o Mulheres Políticas existe. Não para ensinar mulheres a falar melhor, mas para discutir por que falar custa tanto e como esse custo pode e deve ser transformado.

Em 2026, mais do que nunca, será preciso ir além da pauta eleitoral. Será necessário falar de bastidores, de poder simbólico, de saúde emocional, de permanência e de escolha. Porque ocupar espaços importa. Mas seguir neles sem se perder é o verdadeiro ato político.

Para que isso aconteça, porém, é preciso antes colocar o tema na mesa. Nomear.Não dá mais para tratar isso como detalhe. Não é vitimismo. É estrutura.

Enquanto a política continuar naturalizando o esgotamento feminino como parte do caminho, continuará perdendo mulheres preparadas, éticas e absolutamente necessárias.

Nomear isso é um gesto político.Colocar na mesa é um gesto de coragem.Mudar o jogo é um gesto coletivo.

2026 não será um ano fácil.Mas pode ser um ano mais consciente.E consciência, na política, ainda é o ato mais radical que existe.


O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres Políticas.

Lu Rodrigues. Mulheres Políticas.

Luana Rodrigues é publicitária e fundadora da AOUM – Comunicação Intencional, atua há mais de 20 anos em comunicação pública, institucional e política. Formada em Comunicação Social pela UFRGS, é palestrante e consultora, com MBA em Marketing Estratégico (ESPM) e em Gerenciamento de Projetos (USP/Esalq), especialização em Psicologia Positiva (PUC/RS) e estudos em Psicanálise (Instituto ESPE). Também é host do podcast “Mulheres Políticas”, disponível no YouTube e Spotify, e participa ativamente de fóruns de discussão e aprendizado.


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