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O eleitor está tão cansado que não acompanha os escândalos de corrupção

  • Foto do escritor: Elis Radmann
    Elis Radmann
  • 18 de mai.
  • 3 min de leitura

O Brasil vive uma sequência permanente de crises políticas, denúncias de corrupção, fraudes em benefícios públicos, disputas judiciais e investigações envolvendo autoridades. Casos como as fraudes no INSS, o Banco Master e os conflitos entre instituições dominam parte do noticiário político nacional. Mas a pergunta que fica é: o eleitor ainda acompanha tudo isso?

Imagem editorial gerada por IA.
Imagem editorial gerada por IA.

Uma pesquisa realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião com eleitores do RS mostra um dado revelador sobre o humor social do país: a maioria dos gaúchos afirma estar pouco ou nada informada sobre os escândalos políticos recentes. Apenas pouco mais de um terço se considera efetivamente informado sobre os casos.

O dado chama atenção porque o Brasil já viveu momentos em que denúncias de corrupção mobilizavam intensamente a opinião pública, geravam protestos, ampliavam debates familiares e pautavam o voto. O excesso de crises tem produzido um tipo de fadiga coletiva. A política permanece presente, mas o interesse pelo detalhe dos escândalos diminuiu.

Isso não significa indiferença completa. Pelo contrário. Quando perguntados se esses episódios podem influenciar o voto para Presidente da República, mais da metade dos gaúchos respondeu que sim. Ou seja, muitos eleitores não acompanham profundamente os casos, mas mantêm uma percepção geral de desgaste ético e institucional.

Na prática, o eleitor não sabe exatamente os detalhes da denúncia, mas guarda uma sensação difusa de desconfiança. É como se a corrupção tivesse deixado de ser um fato extraordinário para se tornar parte do ambiente político cotidiano. E isso altera a forma como o tema impacta a sociedade.

O estudo também revela diferenças importantes no perfil dos eleitores. Homens, idosos e pessoas de maior renda demonstram maior nível de informação sobre os escândalos. Já mulheres, jovens e eleitores de menor renda aparecem mais distantes desse acompanhamento político diário. Isso ajuda a compreender por que determinados temas mobilizam fortemente alguns grupos, enquanto passam quase despercebidos para outros.

Outro aspecto importante é que o impacto dos escândalos depende cada vez mais da conexão com a vida concreta das pessoas. Quando o eleitor percebe que a corrupção afeta aposentadorias, serviços públicos, impostos ou oportunidades econômicas, o tema ganha força. Quando permanece apenas no campo institucional ou jurídico, tende a produzir menor mobilização social.

Existe também um componente ligado à polarização política. Parte do eleitorado já possui posicionamentos ideológicos consolidados e tende a relativizar denúncias envolvendo o campo político com o qual se identifica. Nesse ambiente, a repercussão dos escândalos deixa de ser apenas moral e passa a ser interpretada pela lente da disputa política, a chamada perseguição política.

Os dados mostram que o eleitor não abandonou totalmente a preocupação com ética e corrupção. O que mudou foi sua relação emocional com o tema. Há menos indignação contínua e mais cansaço. Menos acompanhamento detalhado e mais percepção genérica de que “todos os lados têm problemas”.

 

 

 

O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres políticas.

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do RS. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no RS. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do Estado.


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