top of page

Mulheres nas eleições de 2026: o que os números revelam sobre poder, representação e desigualdade política

  • Foto do escritor: Lu Rodrigues
    Lu Rodrigues
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Outubro de 2026 se aproxima. E, com ele, uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu de forma satisfatória em ano eleitoral: onde estão as mulheres no poder?

As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro. Segundo dados recentes da Justiça Eleitoral, elas representam cerca de 52,8% das pessoas aptas a votar no país, somando mais de 82 milhões de eleitoras. Ainda assim, ocupam menos de 20% das cadeiras do Congresso Nacional.

A contradição é evidente: as mulheres decidem eleições, mas seguem longe dos principais espaços de decisão política.


Este artigo reúne dados atualizados sobre a participação feminina nas eleições de 2026, explica mudanças nas regras eleitorais, aponta os obstáculos que permanecem e propõe uma reflexão necessária: democracia sem mulheres no poder é uma democracia incompleta.

Mulheres Congresso
Imagem gerada por inteligência artificial, sob direção editorial do Mulheres Políticas.

O retrato que o Brasil ainda insiste em normalizar

Os números mais recentes são duros.

Segundo a ONU Mulheres, com base no ranking da União Interparlamentar, o Brasil caiu da 133ª para a 139ª posição mundial em representação feminina na Câmara dos Deputados. A proporção de deputadas passou de 18,1% para 17,2%, ou seja, de 93 para 88 mulheres entre 513 cadeiras. No Senado, a representação feminina também recuou: são 15 senadoras em 81 cadeiras, o equivalente a 18,5% da Casa.


A comparação internacional constrange. O Brasil está abaixo de países que, muitas vezes, são vistos como menos avançados em direitos das mulheres.


Nos municípios, a distância também é grande. Nas eleições de 2024, as mulheres representaram quase 18% do total de eleitos para prefeituras e câmaras municipais. Foram eleitas cerca de 10,6 mil vereadoras, o que representa 18,24% das vagas, e 724 prefeitas no primeiro turno, cerca de 13% do total de prefeituras.


O avanço existe, mas é lento demais.


E quando olhamos para mulheres negras, a desigualdade se aprofunda. Dados do Instituto Alziras mostram que mulheres negras, embora sejam parcela expressiva da população brasileira, governam apenas cerca de 4% dos municípios.


A conclusão é direta: o problema não é falta de mulheres interessadas em política. O problema é um sistema que ainda seleciona, financia, protege e legitima majoritariamente homens.2026 pode repetir um apagamento histórico.


A eleição presidencial de 2026 acende um alerta simbólico.


Entre os principais nomes colocados na disputa presidencial, a cena ainda é majoritariamente masculina. A pré-candidatura feminina mais citada até o momento é a de Samara Martins, da Unidade Popular, partido sem bancada relevante no Congresso. Reportagens recentes apontam que ela aparece como a única mulher entre os nomes apresentados como pré-candidatos à Presidência.


Em 2022, quatro mulheres disputaram a Presidência da República: Simone Tebet, Soraya Thronicke, Vera Lúcia e Sofia Manzano. Juntas, somaram menos de 5% dos votos válidos. Mas estavam na disputa, ocupando espaço simbólico no debate nacional.


Em 2026, o risco é outro: uma eleição presidencial em que as mulheres apareçam apenas como eleitoras, apoiadoras, primeiras-damas, articuladoras ou cabos eleitorais. Não como protagonistas centrais da disputa pelo poder.


Nas eleições para governos estaduais, o cenário também preocupa. Levantamento do Metrópoles apontou que, até março de 2026, 20 mulheres eram cotadas para disputar governos estaduais, número 41% menor do que em 2022, quando 34 mulheres concorreram ao cargo. Naquele ano, apenas duas foram eleitas: Raquel Lyra, em Pernambuco, e Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte.

A pergunta que fica é incômoda: por que os partidos ainda tratam as mulheres como complemento de chapa, e não como projeto real de poder?


O que mudou nas regras para as mulheres nas eleições 2026

As eleições de 2026 terão novas regras importantes para a participação política de mulheres, pessoas negras e grupos historicamente sub-representados.


A principal base segue sendo a cota de gênero. Os partidos devem registrar no mínimo 30% de candidaturas femininas nas eleições proporcionais, como deputadas federais, estaduais e distritais. O descumprimento pode gerar questionamentos jurídicos graves, inclusive cassação de chapas em casos de fraude.


Também permanece a regra de destinação mínima de recursos. Pelo menos 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de rádio e televisão devem ser direcionados às candidaturas femininas, respeitando a proporção de candidatas registradas.


Outro ponto relevante é a contagem em dobro dos votos dados a mulheres e pessoas negras para fins de distribuição dos fundos partidário e eleitoral. Essa medida foi prevista pela Emenda Constitucional nº 111 e vale até 2030.


Na prática, isso significa que eleger mulheres também impacta o futuro financeiro dos partidos. Mesmo assim, muitos partidos ainda agem como se candidaturas femininas fossem uma exigência burocrática, e não uma estratégia democrática.


Para 2026, o TSE também atualizou resoluções sobre propaganda eleitoral, internet, prestação de contas e uso de tecnologia nas campanhas. A Resolução TSE nº 23.755/2026 altera regras de propaganda eleitoral e inclui dispositivos voltados ao ambiente digital.


A legislação avançou. O desafio agora é transformar regra em prática.


Violência política de gênero: o obstáculo que tenta expulsar mulheres da vida pública

Falar sobre mulheres nas eleições de 2026 sem falar de violência política de gênero é ignorar uma das principais barreiras de entrada e permanência das mulheres na política.


A violência política contra a mulher é crime no Brasil desde 2021, com a Lei nº 14.192. Ela ocorre quando uma mulher é constrangida, ameaçada, perseguida, humilhada ou atacada por ser mulher e por ocupar, disputar ou exercer um espaço político.


Essa violência pode acontecer em plenários, partidos, bastidores, redes sociais, grupos de WhatsApp, entrevistas, campanhas e comentários públicos.


No ambiente digital, o problema ganhou escala. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, estimou que 8,8 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses. O levantamento também mostra que 33% das mulheres passaram por ao menos uma das situações de violência listadas pela pesquisa.


Quando essa violência atinge mulheres na política, ela tem um efeito coletivo: não ataca apenas uma candidatura. Ataca a possibilidade de outras mulheres se reconhecerem como capazes de disputar poder.


Em 2026, o Ministério Público Eleitoral informou que vai priorizar casos de violência política de gênero, com medidas preventivas e repressivas, preservação de provas, proteção das vítimas e atuação também diante de partidos e plataformas digitais quando a violência ocorrer na internet.

É um avanço. Mas não basta.


Partidos precisam proteger suas candidatas. Plataformas precisam agir com rapidez. Eleitores precisam reconhecer a diferença entre crítica política legítima e violência de gênero. E mulheres que sofrem ataques precisam ter rede, orientação e respaldo jurídico.


Por que mais mulheres no poder muda a política

Mais mulheres na política não é uma pauta identitária isolada. É uma questão de qualidade democrática.


Quando mulheres ocupam espaços de poder, novos temas entram na agenda pública: cuidado, educação, saúde, violência doméstica, segurança alimentar, infância, trabalho doméstico, autonomia econômica, assistência social, mobilidade e acesso a direitos.


Isso não significa que todas as mulheres pensem igual. Não pensam. Mulheres têm ideologias, trajetórias, partidos e visões diferentes de mundo.


Mas a presença delas altera a composição da mesa onde as decisões são tomadas.

E essa é a questão central: não basta que mulheres votem. Mulheres precisam decidir.

A democracia brasileira não pode continuar tratando a maioria do eleitorado como minoria política.


O que eleitoras, candidatas e partidos podem fazer agora

Faltam poucos meses para outubro de 2026. Há ações concretas que precisam acontecer agora.

Se você é mulher e pretende disputar uma eleição, procure orientação jurídica, organize sua documentação, compreenda as regras de financiamento, fortaleça sua rede de apoio e exija do partido estrutura real de campanha.


Se você apoia uma candidata, não espere a campanha começar oficialmente para falar sobre ela. A construção de reputação começa antes. Compartilhe conteúdos, participe de agendas, ajude a ampliar a presença pública dessa mulher.


Se você é dirigente partidário, trate candidaturas femininas como projeto estratégico. Não basta cumprir cota. É preciso oferecer recurso, tempo, equipe, segurança, formação e visibilidade.

Se você é eleitora ou eleitor, observe quais partidos investem de verdade em mulheres. A resposta não está no discurso. Está na nominata, no orçamento, no tempo de televisão, na estrutura e na proteção oferecida às candidatas.


E se você presencia violência política de gênero, não normalize. Registre, denuncie, apoie a vítima e ajude a impedir que o silêncio seja usado como estratégia de exclusão.


Violência política digital: o campo de batalha que ninguém mostrava antes

Falar de candidaturas femininas em 2026 sem falar de violência política de gênero é ignorar um dos maiores obstáculos à participação das mulheres.


Segundo pesquisa do DataSenado divulgada em novembro de 2025, 70% das ameaças registradas contra mulheres na política acontecem no ambiente digital. Ataques que vão de insultos sexistas a deepfakes com conteúdo pornográfico não consensual, campanhas de desinformação e assédio coordenado nos comentários.


A violência política de gênero é crime no Brasil desde 2021, com a Lei nº 14.192. A pena varia de 1 a 4 anos de prisão, além de multa, com agravantes para atos cometidos em redes sociais ou com transmissão ao vivo. Em 2026, o MP Eleitoral e o TSE estão monitorando proativamente, inclusive com uso de inteligência artificial para identificar disparos em massa de conteúdo sexista.


Mas o monitoramento institucional não substitui a rede de apoio. Se você é candidata ou assessora de uma candidata e sofreu violência política digital, documente tudo antes de denunciar: prints com data e hora visíveis, URL da publicação, nome do perfil. A denúncia pode ser feita ao MP Eleitoral pelo portal mpf.mp.br/servicos.


O Brasil precisa parar de tratar mulheres como exceção no poder

As mulheres são maioria do eleitorado. São maioria da população. Estão nas universidades, nos movimentos sociais, nas empresas, nos sindicatos, nas comunidades, nas câmaras municipais, nos conselhos profissionais, nas organizações da sociedade civil e nas ruas.


Mas ainda são minoria nos espaços onde o poder é formalmente exercido.

Esse descompasso não é natural. É político.


As eleições de 2026 serão mais uma oportunidade de testar se o Brasil quer apenas falar sobre representatividade ou se está disposto a redistribuir poder. Até porque democracia não se mede apenas pelo direito de votar. E a democracia também se mede por quem pode ser votada, financiada, protegida, ouvida e eleita.


A conversa continua no Mulheres Políticas

No Mulheres Políticas, já passaram pelo nosso microfone deputadas, secretárias de Estado, promotoras de Justiça, pesquisadoras, economistas, empresárias, ativistas e lideranças que ocupam diferentes esferas de poder.


Todas ajudam a ampliar uma conversa urgente: mulheres não são presença decorativa na política. São pensamento, projeto, decisão e futuro.


Acompanhe os episódios no YouTube, no Spotify e no Instagram @mulherespoliticas_.

Porque poder, para que te quero? A gente quer muito.


Fontes: ONU Mulheres (março 2026); TSE — Tribunal Superior Eleitoral; Ministério Público Federal; DataSenado/Nexus (novembro 2025); Instituto Alziras; Congresso em Foco; Metrópoles.


Leia também


O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres Políticas.

Lu Rodrigues. Mulheres Políticas.

Luana Rodrigues é publicitária e fundadora da AOUM – Comunicação Intencional, atua há mais de 20 anos em comunicação pública, institucional e política. Formada em Comunicação Social pela UFRGS, é palestrante e consultora, com MBA em Marketing Estratégico (ESPM) e em Gerenciamento de Projetos (USP/Esalq), especialização e estudos em Psicanálise (Instituto ESPE). Também é host do podcast “Mulheres Políticas”, disponível no YouTube e Spotify, e participa ativamente de fóruns de discussão e aprendizado.


Comentários


bottom of page