Mulheres para a política ou política para as mulheres?
- Elis Radmann

- 9 de jun.
- 3 min de leitura
O Brasil convive com uma contradição que merece reflexão. As
mulheres são maioria da população e também do eleitorado. Participam das
decisões familiares, lideram comunidades, estão presentes nos ambientes de
trabalho e desempenham papel central na formação das novas gerações.
Ainda assim, permanecem minoria nos espaços de poder e representação
política.

Diante dessa realidade, surge uma pergunta: precisamos de uma política
para as mulheres ou de mais mulheres vivendo a política de forma orgânica
Historicamente, a política brasileira foi construída a partir de uma lógica
predominantemente masculina. As estruturas partidárias, os espaços de
decisão e até mesmo a linguagem política foram moldados em um contexto no
qual a participação feminina era limitada. Embora muitos avanços tenham
ocorrido nas últimas décadas, ainda persistem barreiras simbólicas e culturais
que dificultam a ampliação da presença das mulheres na política.
Em muitos casos, quando uma mulher conquista um espaço de
liderança, sua presença é tratada como exceção. Surge o debate sobre cotas,
representatividade, etc. Esses mecanismos são importantes para corrigir
desigualdades históricas, mas não resolvem sozinhos a questão central. O
verdadeiro desafio está em transformar a cultura política.
A mudança acontece quando as mulheres deixam de ser vistas como
convidadas e passam a ser reconhecidas como protagonistas legítimas da vida
pública. Não se trata apenas de criar oportunidades para que ocupem cargos
eletivos, mas de fortalecer a percepção de que a política também é um espaço
natural para elas.
Essa transformação começa muito antes das eleições. Ela nasce na
educação, nas referências que oferecemos às meninas e na forma como
falamos sobre liderança e poder. Durante muito tempo, a sociedade associou a
política ao confronto, à disputa e ao exercício da autoridade, características
tradicionalmente vinculadas ao universo masculino. Como consequência,
muitas mulheres cresceram sem se imaginar ocupando esses espaços.
Há uma exigência silenciosa que requer que mulheres demonstrem mais
preparo, mais resultados e mais credenciais para obter o mesmo
reconhecimento concedido aos homens. É como se a competência feminina
ainda precisasse ser constantemente comprovada.
A presença das mulheres na política não pode ser entendida apenas
como uma questão de representatividade. Trata-se também de ampliar
perspectivas. Mulheres acumulam experiências relevantes em áreas
fundamentais para a vida em sociedade, como educação, saúde, assistência
social, gestão de pessoas e organização comunitária. São conhecimentos que
enriquecem o debate público e contribuem para a construção de políticas mais
conectadas com a realidade.
Por isso, talvez a pergunta inicial precise ser reformulada. Não se trata
de escolher entre uma política para mulheres ou mulheres para a política. O
desafio é construir uma democracia em que a presença feminina seja tão
natural quanto necessária.
Quando meninas crescerem acreditando que podem ocupar qualquer
espaço de decisão, quando mulheres não precisarem justificar sua presença na
vida pública e quando a sociedade enxergar a liderança feminina como algo
cotidiano, estaremos mais próximos de uma democracia verdadeiramente
representativa.
Política não é lugar de homens ou de mulheres. Política é lugar de
cidadania.
O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres políticas.

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do RS. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no RS. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do Estado.




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