Maternidade na Atualidade: os desafios invisíveis das mulheres que escolhem (ou não) maternar
- Lu Rodrigues

- 18 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Ser mãe, hoje, é uma decisão carregada de significados, expectativas e, muitas vezes, pressões silenciosas. Embora vivamos em tempos de avanços significativos nos direitos das mulheres, há um tema que permanece como um dos mais complexos quando pensamos em autonomia feminina: a maternidade.
Muito se fala sobre liberdade de escolha. Mas até que ponto essa liberdade existe para todas as mulheres? Quando observamos as nuances do maternar na atualidade — seja para quem decide ter filhos, seja para quem escolhe não ter —, percebemos que ainda há muitos desafios invisíveis. São pesos culturais, emocionais e estruturais que, em grande parte, continuam recaindo sobre os ombros femininos.

A maternidade como escolha (ou não): um direito para poucas?
Os números mostram uma realidade interessante: no Brasil e em várias partes do mundo, as taxas de natalidade vêm caindo. Isso, à primeira vista, parece indicar que as mulheres têm mais autonomia para decidir quando e se querem ser mães. Mas será que essa escolha é, de fato, livre?
Ainda hoje, muitas mulheres ouvem perguntas carregadas de julgamento: “E os filhos, vão ficar para quando?”, “Você já tem idade, vai esperar até quando?” — como se a maternidade fosse uma etapa obrigatória na vida de qualquer mulher.
Por outro lado, quando decidem ter filhos, deparam-se com um ambiente nem sempre acolhedor para essa experiência. A romantização do maternar continua forte, enquanto o apoio real — tanto do ponto de vista social quanto institucional — segue frágil.
A sobrecarga invisível: a jornada sem fim das mães
Segundo dados recentes do IBGE, mais de 11 milhões de lares no Brasil são chefiados por mulheres solo. São mulheres que, além da responsabilidade financeira, também arcam com todas as demandas emocionais, domésticas e familiares. Mas mesmo em famílias com duas figuras parentais, a divisão real das tarefas ainda está longe de ser equilibrada.
É o que especialistas chamam de carga mental: aquela lista infinita de tarefas invisíveis, que vão desde planejar o cardápio da semana até lembrar da consulta médica dos filhos. Tudo isso, somado ao trabalho fora de casa, aos estudos, aos projetos pessoais e profissionais.
Essa sobrecarga tem consequências profundas. A saúde mental das mães é um tema urgente. Não à toa, a Organização Mundial da Saúde alerta para o aumento dos casos de depressão pós-parto e ansiedade materna, muitas vezes negligenciados ou minimizados.
Maternidade e carreira: o dilema ainda atual
O impacto da maternidade na vida profissional é outra faceta importante dessa conversa. Pesquisas da Fundação Getúlio Vargas mostram que mulheres com filhos podem perder até 40% da renda ao longo da vida, seja por afastamentos, seja por dificuldade de ascensão após a licença-maternidade.
Enquanto empresas cobram produtividade e flexibilidade, raramente oferecem suporte real: falta estrutura para acolher mães (como creches no local de trabalho, horários adaptáveis ou licença parental igualitária que incentive pais a compartilharem responsabilidades).
Países como Suécia e Noruega já entenderam que responsabilidade parental precisa ser coletiva. No Brasil, essa mudança ainda engatinha, e muitas mulheres se veem obrigadas a escolher entre crescer profissionalmente ou maternar sem culpa.
As redes sociais e o peso do olhar alheio
Com a exposição digital, surgiram também novos desafios para as mães contemporâneas. As redes sociais criaram um ambiente onde a comparação é constante. Imagens de maternidades “perfeitas” e famílias idealizadas reforçam cobranças silenciosas, alimentando um ciclo de culpa e insuficiência.
Por outro lado, movimentos como #MaternidadeReal tentam abrir espaço para conversas mais honestas. Mães influenciadoras e mulheres anônimas têm mostrado, sem filtros, as dificuldades diárias do maternar. Ainda assim, lidar com o julgamento virtual é mais uma camada do desafio.
Liberdade de escolha só existe com apoio real
O debate sobre maternidade não pode ser dissociado da luta por igualdade de gênero. Escolher maternar — ou não — deveria ser uma decisão livre, respeitada e acolhida, sem culpa ou penalizações sociais, emocionais e profissionais.
Mas para que isso aconteça, precisamos de políticas públicas efetivas, redes de apoio sólidas, educação para paternidades ativas e, acima de tudo, uma mudança cultural profunda que deixe de colocar o peso exclusivo do cuidado nas costas femininas.
A maternidade na atualidade não deveria ser um caminho solitário. Quando sociedade, famílias, empresas e governos dividem essa responsabilidade, as mulheres podem, de fato, exercer seu direito de escolha e viver a maternidade — ou a não maternidade — de forma plena, digna e saudável.
O texto não reflete, necessariamente, o pensamento/opinião do Mulheres Políticas.

Luana Rodrigues é publicitária e fundadora da AOUM – Comunicação Intencional, atua há mais de 20 anos em comunicação pública, institucional e política. Formada em Comunicação Social pela UFRGS, é palestrante e consultora, com MBA em Marketing Estratégico (ESPM) e em Gerenciamento de Projetos (USP/Esalq), especialização em Psicologia Positiva (PUC/RS) e estudos em Psicanálise (Instituto ESPE). Também é host do podcast “Mulheres Políticas”, disponível no YouTube e Spotify, e participa ativamente de fóruns de discussão e aprendizado.








Comentários